quinta-feira, agosto 03, 2006
Postado por Elisandro Borges
Vamos dormir. Só dormir por enquanto. Vamos dormir. Daqui a pouco amanhece, e chega a correria, o barulho. É aquele batidão, e termina sendo bom. Um ritmo que não pára enquanto o sol não resolve sair. E não adianta chuva, pois se ele ainda está lá é porque é dia, e de dia a gente anda, sua, faz alguma coisa, pra que essa ou alguma outra dessas aconteça. Cotidiano é assim, leve, às vezes lento ou instantâneo, quase como um bom achocolatado que se dissolve na mesma velocidade em que a boca saliva. Mas claro, tudo depende da boca e do achocolatado. E esse é só um detalhe. Só um detalhe. O que a gente quer é ser notado. Anonimato é bobeira. Anonimato é omissão. Anonimato não é nem o que o nome esconde: nada. Os que não têm assinatura não existem e os sem nome tampouco. Tudo depende da boca de quem fala, do ouvido de quem ouve, dos olhos de quem lê, do tato de quem sente e do nariz de quem percebe a diferença dos aromas, cheiros, odores, perfumes e adjacências. E esse é só um detalhe. Só um detalhe. Quem já ouviu Roberto sabe. Mas esse não é só de nós dois, é de todos também. Vamos dormir. Só dormir por enquanto. Vamos dormir. Daqui a pouco amanhece e aparecem outros detalhes. Um monte. Só pra mudar o dia, só pra mudar a ordem. Um ritmo que não pára. E de novo não adianta chuva se é dia, porque o sol tá lá atrás, ninguém vê nesses tempos, mas pode acreditar, ele tá lá sempre.
Ouça em alto e bom som:
The Wallflowers - Beautiful Side Of Somewhere
Post saído do forno às 3:00am
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terça-feira, julho 04, 2006
Postado por Elisandro Borges
As pessoas não entendem nada de pessoas. As pessoas são sempre as mesmas quando pensam nelas mesmas. Pessoas que pensam, que passam, que pagam o que falam sem saber o que disseram. Pessoas acabam em pessoas. Elas nascem de pessoas, crescem como uma pessoa, e desaguam em pessoas. Pessoas se descabelam, se maltratam e amam como podem. Pessoas são só pessoas porque elas não são nada se tudo ainda é muito pouco, pouquinho, cadiquim, um quinhãozinho. Elas querem tanto. Elas querem muito mais do que pensam entender a necessidade. Pessoas... Elas são tão burras, boas e bestas. Pessoas são bacanas, bananas e cortantes como um bisturi. Doces, amargas, cada uma com o seu gosto. Quero ser pessoa quando crescer. Quero dizer pros meus netos que por pior que seja uma pessoa, merda nenhuma serve de comparação, mas elas prestam sim, é só procurar que sempre aparecem farelos em algum canto escondido. E olha que elas têm se comparado. No final de tudo fica perfeito, os ponta-pés viram abraços e a vida corre bem melhor. Elas falam, falam, falam e no fim sempre vem um enfim, que é pra fechar o assunto com chave de ouro sem deixar resquícios de burrice. E que prepotência julgar a burrice, não é? A gente é feliz e às vezes disfarça pensando que vai economizar um pouquinho pras festas de fim de ano, que bobeira. Economizar felicidade é o cúmulo da pão-durice! E o ano que vem... vem. Esses anos estão sempre vindo e a gente indo, eles vindo e a gente indo, eles vindo e a gente indo, rindo e rimando; quanta gente! Você chorou no enterro de mais de um, ah se chorou! Porque sei. Simplesmente chorou, chorou, chorou e chorou. Já morreu uma vez ou outra por alguém ou sem alguém. Já morreu sim. Não adianta. E depois de ter morrido, ficou com vergonha de olhar no espelho. E morreu tantas vezes, mas tantas vezes que nem sente mais dor e finalmente chega a acreditar ter se tornado um ser "pessoa". Os humanos? Esses já estão extintos. Sobraram as pessoas... e elas estão indo também.
Ouça em alto e bom som: System Of A Down - Lonely Day
Post saído do forno às 4:12am
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quarta-feira, junho 07, 2006
Postado por Elisandro Borges
Sim, tenho sim. Mas que pergunta interessante! Tenho todos os dentes, e uma língua que se esconde dentro da boca, só uma. Olhos carrego dois, nariz cheiro com um só. A pele continua a mesma amarela e desbotada implorando por um raio de sol. Cabelo? Sim, mas estão cansados e partindo, não de lado, pelo contrário, o contrário da cabeça, destino ao chão.
Barriga? Bem, ela tá aqui, insiste em não usar cinto. Sinto muito, mas já cansei de insistir que cinto é tudo pra segurança, não é? Cuidar da barriga também é bom. É bom cuidar da gente. Das outras pessoas também. Das que estão aqui do nosso lado e das que não estão tão do lado, mas que ainda assim guardam sua devida importância. Às vezes esqueço disso. E quando lembro dá um nó na garganta...
Ouça em alto e bom som: Lisahall - Is This Real?
Post saído do forno à 1:47pm
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quarta-feira, maio 24, 2006
Postado por Elisandro Borges
Foi assim. A manhã inteira com o tempo parado. Música tocando no fundo, bem baixa, a ponto de quase não poder ouvir nada. Silêncio na casa inteira e a casa inteira vazia. E o dia ali, olhando pra gente numa indiscrição tamanha, que vergonha. Cara toda amaçada combinando com o feriado torto. Dor nas costas, preguiça e aquele hálito de quem acaba de acordar. E depois o dia passando devagar, chegando aquele azul suave que aos poucos escurece tudo. É noite fresca. Chegou agora. Cinema mais tarde. Sono depois.
Mais um pouco de música e conversa pra jogar fora e depois guardar de novo. A gente se vê por aí, a gente se vê por aqui e por telefone também. Mais conversa. Filme, shows alternativos e teatro no fim do mês. Hoje a gente fica por aqui, tomando chá quente e doce. Que mentira, a gente nunca toma chá, mas bem que podia. E pára de falar "a gente" toda hora. Sei lá, fala "nós" de vez em quando. Só pra mudar. Muda um pouco. O ritmo. É simples o ritmo, simples e tão bom. Repete por favor?
Ouça em alto e bom som: Luke Doucet - Free
Post saído do forno às 18:25pm
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terça-feira, abril 25, 2006
Postado por Elisandro Borges
Multiplicada por cenas que se juntam e dão movimento. Cinema, arte e música. Acho que a vida foi feita pra isso. Um punhado de sentimentos misturados. É aqui que a gente vive. Ficar por aqui brincando de ser diferente o que a gente sempre foi. É aqui que a gente brinca de ser mais feliz. Cinema, arte e música. Acho que a vida foi feita pra isso. Tudo feito, desfeito, colado ou emendado. Criado, inventado, copiado. Qualquer coisa que te faça empolgar naquelas marés de tédio. E você volta a olhar no espelho, coloca uma roupa limpa, com cheiro de amaciante e sente o ar bater de leve depois de tomar um banho gostoso. Enxuga melhor o rosto e olha de novo no espelho. É hora de ver o mar. Pra quem não tem mar, que veja o lago. E pra quem não tem lago: cinema, arte e música. Acho que a vida foi feita pra isso.
Ouça em alto e bom som: Hard-Fi - Better do better
Post saído do forno às 11:58pm
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quarta-feira, abril 19, 2006
Postado por Elisandro Borges
Hoje, 19 de abril, dia do índio, coincidência ou não, é também o aniversário deste blog. Ele está completando dois aninhos, já tá andando e fala até umas bobagens. Que maravilha! Ele nasceu aqui ó: www.endorfina8.blig.ig.com.br . Como o tempo passa rápido, viu! Dois anos voaram. É isso. Sem mais para o momento, feliz natal para todos. :)
Ouça em alto e bom som: Cold - Back Home
Post saído do forno às 10:25pm
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sábado, abril 01, 2006
Postado por Elisandro Borges
Tá, hoje me peguei pra escrever qualquer coisa depois de um mês de abstinência completa. Deve ser porque esse dia nasce no primeiro de abril. Dia pouco expressivo de mentiras de verdade. E a gente volta a pensar em um monte de coisas, pessoas, coisas e pessoas, mentiras e suas pessoas, verdades pela metade ou simplesmente a realidade como ela é. As idades, crianças correndo na sua frente e te chamando de tio... e gente grande por perto, não só na altura. Mas é isso, decidir a vida é só mais um detalhe pra você ter pensado ontem, porque hoje já passou. E o detalhe é que dá vontade de parar tudo por tempo indeterminado. Parar com a correria, parar com a vida adulta de vez, parar com responsabilidades no seu papel social, parar, simplesmente parar. Por um tempo, assim, só por um tempo, até ficar com vontade de ver tudo de novo de um jeito diferente. Só fazer o que dá vontade. Só isso.
Ouça em alto e bom som: The Wallflowers - I Started A Joke
Post saído do forno às 02:07am
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quarta-feira, março 01, 2006
Postado por Elisandro Borges
Quarta-feira de cinzas já elvis, se foi, ainda não acabou mas vai ter acabado quando alguém aparecer aqui pra ler. Nossa, de cinzas mesmo. Aqui em Goiânia o dia inteiro foi cinza, nublado. E a preguiça que dá depois do feriado inteiro? Nem me fala. Ai, vamu lá negada! Labuta! Voltar ao ritmo normal!!! Eita!!! Ai, deu preguiça. Deu preguiça. Deu preguiça até de escrever o post. A satisfação é nossa e continuem com suas contribuições involuntariamente forçadas aqui nos comentários. Bom restinho de semana pra todo mundo, mesmo que esse todo mundo não apareça por aqui. Fui.
Ouça em alto e bom som: The Green Room – Shake it
Post saído do forno às 05:58pm
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domingo, fevereiro 19, 2006
Postado por Elisandro Borges
Maravilha! Agora a gente tem uma hora extra pra viver e atrasar um pouco a pressa. O horário de verão acabou. Acabou o show dos Rolling Stones também. Caramba, os caras estão vivos até hoje! Isso é muito bom apesar do som que eles fazem não ser o tipo de ritmo que faz minha cabeça balançar freneticamente em acessos de euforia, com exceção de uma música ou outra, claro. Fiquei pensando comigo mesmo, já imaginou o Mick Jaguer cantando e de uma hora pra outra a suposta dentadura do cara salta pela boca como um sapo que foge de sal? Vai saber, embora a idade um pouco avançada, é impressionante a vitalidade dos caras, realmente dinossauros incansáveis. Até gostei da "Rain Fall Down", gostei de verdade.
E assim foi. Imagino que as pessoas que estiveram presentes no show puderam aproveitar bastante, lógico, considerando também todo o ambiente de muvuca que tomou conta de Copacabana. Numa boa, perdoem-me a ignorância, mas não faço idéia de como podem deduzir um milhão e meio de pessoas ali. É nada mais, nada menos que todos os habitantes de Goiânia inteira, imaginem todos, podem contar com a Dona Matilde do armazém também, sem discriminação, pensem apenas em meros números. Dá pra imaginar a cidade de Goiânia em massa numa praia do Rio de Janeiro? É muita gente, muita! E juro que não sonhava nessa possibilidade.
Era isso. Acabou o assunto. Uma hora a mais é sempre bem vinda. Uma hora a mais de vida. Uma hora a mais de qualquer coisa, qualquer vento ou alento, qualquer bobagem ao pé do ouvido, qualquer piada em boteco de esquina ou um picolé de groselha pra tingir a língua e adoçar o humor. O importante é sentir o gostinho do tempo. E abaixo uma musiquinha bem deliciosa pra começar a semana. Ai, ai... É programa de rádio isso aqui?
Ouça em alto e bom som: Kings of Convenience - Misread
Post saído do forno às 05:20am
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segunda-feira, fevereiro 06, 2006
Postado por Elisandro Borges
Ser a mesma pessoa depois que tudo mudar. Mudar antes que tudo mude. Ser perfeito, porque é errado errar, ainda mais tantas vezes. Acertar quase tudo, errar quase nada, ser imbatível, porque eles querem e precisam de alguém imbatível. Seja isso e mais um pouco, de qualquer forma você vai ter que impressionar. Não seja lento e também não tenha memória curta, pois vão depositar confiança em suas costas, quer pese ou não. Dúvidas? Não tenha, você é imbatível, lembra? Você é imbatível. Grande ilusão a sua. Grande ilusão. Vamos descobrir o mundo primeiro. Acho que a gente acabou de nascer, do nada, do zero.
Ouça em alto e bom som: The Devlins - Headstrong
Post saído do forno às 02:25am
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segunda-feira, janeiro 30, 2006
Postado por Elisandro Borges
Este é o Bigode. Não me perguntem o nome completo ou real dele que não vai ser possível resposta alguma. É o seguinte, esta é a campanha “Onde está Sueli – o amor de Bigode?”. Bigode trabalha como guardador de carros em frente à livraria chamada Argumento. Creio que seja no Rio de Janeiro. Li essa matéria no site do fantástico e vou aderir à idéia do então colunista Alberto Villas. Senhores brasileiros e senhoras brasileiras, façam como o próprio colunista bradou em suas linhas: “Brasileiros, uni-vos! Vamos colocar a sua fotografia nos coletivos, nos táxis, nas estações rodoviárias, nos aeroportos, no horário nobre da televisão”.
É verdade, façamos pelo outro o que gostaríamos que fizessem por nós. Sueli, onde está você, querida? Apareça! Mostre sua cara para o mundo, ou simplesmente não mostre, mas vá ao encontro de Bigode – o cara que te ama tanto e infelizmente de uma forma ou de outra a deixou escapar por entre os dedos do destino. Sueli, apareça! Onde quer que você esteja, seja em Tupanci do Sul ou Uiramuta, São Miguel do Guaporé ou Riachão do Dantas; não importa onde, mas que apareça! Um homem que ama não é qualquer homem, é alguém muito especial por sinal! Se o Brasil agradece, imagina o que faria Bigode? Boa sorte Bigode!
Ouça em alto e bom som: The Devlins - Where Are You Tonight
Post saído do forno à 01:55am
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quinta-feira, janeiro 26, 2006
Postado por Elisandro Borges
Todo o mundo tem um mundo. Cada mundo gira em torno de outros mundos ou de seu próprio. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Não confundam, entendem? Ser feliz é ser feliz com o que se pode ser. É tão bom ser feliz com o que se pode ser. Seria sábio demais se soubéssemos toda a verdade. Verdadeiramente falando, acho que não existe a verdade única. Tem horas em que a imaginação é quase tão real quanto o toque. Mas imaginação nenhuma pode substituir o mesmo, a sensação real, palpável e urgente do contato da pele. Pessoas são pessoas de fato quando elas podem ser tocadas, não só de fora pra dentro, e sim por completo.
Pessoas são simbólicas, pedantes, simples ou eternas. Elas são fagulhas, fragrâncias, éter, brutalidade, arrogância, memórias vivas; claras, opacas, interessantes, flácidas, volúveis e incríveis. São malhadas, mirradas, plácidas ou agitadas. Elas carregam o código genético dentro de si. Dentro de si elas encontram-se ou perdem-se desesperadamente sem noção de onde pisar. Elas estragam, explodem e constroem. Vivem aprendendo os mesmos erros esquecendo dos acertos.
Fácil entender, difícil explicar o quanto é fácil. Por elas somos nós, e temos sido elas por nós quando em segundos não somos nada sem elas. Queria lembrar sempre do que existe, assim, disponível a todos. Fazer paz ou sexo, embriagar ou silenciar em oração. Queremos mais, desde que possamos ser mais gente, com a gente mesmo, com nós mesmos, e com alguém tão interessante quanto o nosso próprio umbigo.
Ouça em alto e bom som: Johann Sebastian Bach - Cello Suite n.1
Post saído do forno às 06:50am
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domingo, janeiro 15, 2006
Postado por Elisandro Borges
Foda! Sabe, eu não desejo isso pra ninguém. Ontem de madrugada (sexta-feira 13 pro dia 14) resolvi fazer um lanche como sempre. Quando às exatas 04:40am percebo a luz do meu quarto apagando sozinha. Gelei dos pés à cabeça e tentei ficar calmo, tentei imaginar que a luz tivesse queimado. Criei coragem e fui até o quarto e tive a desagradável surpresa de ver que a luz estava funcionando normalmente. Pronto. Era só o susto que eu precisava pra constatar que tive contato com um espírito ou qualquer coisa parecida que desconheço. Só a xucrutz pra me salvar mesmo. Realmente me senti como uma criança assustada, morrendo de medo de fantasmas, espíritos ou coisa semelhante de um mundo ainda não explorado por essa pessoa aqui. Por incrível que pareça, era sexta-feira 13 pra 14, o que é aniversário do meu pai também no dia 14. Coincidência ou não, eu vi, vi com meus próprios olhos e fiquei chocado, com medo, isso, medo. Mas o dia amanheceu e tô aqui de volta, mais vivo do que nunca! Amém. Ai, ai, ai, só faltava essa, é brincadeira, só pode. Abaixaram o volume do meu som. É sério. Eu não tô ficando doido. Não é possível. Acho que tô me acostumando com esses fantasmas. Será que é uma fantasma? Fazer o que, né?
Ouça em alto e bom som: Iron & Wine - Cinders And Smoke
Post saído do forno às 06:14am
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sábado, janeiro 07, 2006
Postado por Elisandro Borges
Cadê o sol? Olhei pra trás e ainda tava escuro. Não, na verdade era a janela. Foi só abrir a porta que era visível o azul bem mais claro, o oposto da noite. Tá lá a cidade, as pessoas empilhadas umas em cima das outras em seus compactos apertamentos. Dizem que esses prédios arranham o céu. Parece que é verdade, olha só o tanto de marca que ficou nele. São 6:30 da manhã – que horário mais lindo! Todo o mundo fica mais bonito de olhos fechados e em silêncio nessa hora. Só dá pra ouvir os ônibus circulando, esses sim; são como galos, começam às cinco. O frio da manhã fresca é tão limpo, que só pode ter sido purificado mesmo, dá até vontade de beber o vento que desliza no rosto. Chega, tentei ser poético, mas não vai dar não. Vamos ao que interessa: fazer um singelo comentário dos trabalhadores, dos muambeiros, dos sobreviventes e por que não dos talentos duvidosos?
Não sei por que, mas como morador do centrão há 20 anos, muitos desses centros lembram qualquer coisa dantesca por falta de outro vocabulário mais adequado. Onde há muamba, sempre existe uma muvuca, um aglomerado de pessoas se esbarrando umas nas outras, mães arrastando os pequenos-grandes-fedelhos berrando pelo brinquedinho eletrônico quase que o triplo do salário da própria; camelôs vendendo cds do “O Rappa” a um real e gritando ao mesmo tempo: “olha o raaaapa!” – é neguim correndo com caixa de papelão na mão, atropelando tudo... fazendo aquela farova pra fugir do fiscal. É o carro da pamonha com seu super merchandising: “olha a pamonha, olha a pamonha! Pamonha de sal, pamonha de doce, pamonha à moda, pamonha para todos os gostos, aqui, no carro de som”. Só falta agora aparecer o carro da maconha: “olha a maconha, olha a maconha; maconha prensada, maconha enrolada, maconha de menta, maconha para todos os gostos! Aqui, no carro de som”. É vendedor ambulante com a mão abarrotada de óculos de “grife” a cinco reais suando pra tentar liquidar o estoque da caixa que trouxe no lombo, e por aí vai.
O brasileiro e seus pulos; o brasileiro, aquele capaz de espremer dinheiro de uma laranja enquanto o dono do boteco da esquina consegue sobreviver vestido de Ronaldinho pra ver se dribla o leão da receita no fim do ano. Fora tantos “crochês” no comércio, cheques pré-datados, cheques sem gravidade – os voadores mesmo. É rebolando que o país ganha o pão. Alguns ou algumas ainda levam ao pé da letra e literalmente rebolam pra sentir o gosto do trigo. Falaram tanto de dinheiro na cueca, de Valerioduto, de subornos, da grande e previsível corja política e da indignação também de praxe por todos os cantos do país. Sabe, isso pode até ser talento, tamanho é o talento – duvidoso ou não – que até Deus estranha a criação.
Ouça em alto e bom som: Spoon - I Turn My Camera On
Post saído do forno às 09:27am
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sexta-feira, janeiro 06, 2006
Postado por Elisandro Borges
Vai, conta qual é o seu maior medo ou sua estação do ano. Uma cidade pra morrer ou o maior vexame da sua vida. Já chegou aos quarenta e percebeu que a vida não deveria ser tão séria assim? E o hábito de planejar metas pro ano novo, continua? Não saber mais o que significa o amor talvez seja apenas não querer mais rotular esse sentimento. Mudando de assunto a cada frase, o que representa uma lata de lixo pra você? E o assunto muda. Alguma crença além de Deus? Voltar no tempo e consertar uma mutação celular que definiria a vida lá na frente seria poder voltar antes de qualquer estrago.
Às vezes a gente perde muito tempo procurando a chave enquanto a porta sempre esteve aberta, ali, escancarada. Existe tanta coisa, até mulheres cheias de fetiches por caras que encaixam tranqüilamente um carro em balizas apertadas. Você gosta mais do primeiro dia do ano ou do último? Entre o último e o primeiro dia do ano, existe a passagem, a transformação, um ano virando o próximo e talvez a festa seja essa, nem para o primeiro, nem para o último, mas provavelmente pela passagem daquela ponte que divide dois anos – o velho e o novo.
E todo o processo acontece à meia noite, a passagem é à meia noite. E ela tem cor amarela, as luzes agora são todas amarelas piscando nos faróis. Não deixe os pés desprotegidos. O frio chega e eles também precisam de abrigo. O coração, tudo, todo o mundo, um dia, sempre.
Ouça em alto e bom som: Sevendust - Live Again
Post saído do forno à 01:43am
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quarta-feira, janeiro 04, 2006
Postado por Elisandro Borges
- Mãe, o que acontece se quebrar o espelho da televisão?
- Né espelho não, minha filha, é vidro.
- E como é que eles encolhem pra entrar nela?
...
Ouça em alto e bom som: Mew - Coffee Break
Post saído do forno às 08:06am
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sexta-feira, dezembro 30, 2005
Postado por Elisandro Borges
Bebeu o ultimo vinho, esvaziou o oitavo coração, anunciou atencipadamente a morte de uma geração. Tentou entender a sobrevivência de um amor em decadência, lembrando dos vasos quebrados e dos estilhaços espalhados pelo chão. E a vida passava como água de chuva escorrendo até o mais próximo e imediato bueiro, seguindo o seu curso por debaixo das ruas. E quando tudo der certo, perceberá que o desapego resultou na conseqüência de acertos importantes. Segue assim mesmo, antes que o medo paralise, porque na pior das hipóteses, o chão está lá pra todos, e se esse mesmo chão parecer faltar em algum momento, vai decifrar aos poucos quando sentir que ainda não terminou de cair. Esse medo é imaturo, mas a hora de mudar acaba chegando a tempo de prevenir um pesadelo. Intuição pode ser vital.
Ouça em alto e bom som: Straylight Run - Another Word For Desperate
Post servido pelo padeiro às 02:59am
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terça-feira, dezembro 27, 2005
Postado por Elisandro Borges
– Nossa, agora eu entendo porque você usa essa bota de cau-bôi.
– Ô mané, né cau-bôi não, é cowboy!
– Não interessa, sua mãe me mostrou uma foto sua quando era pequeno com aquela botinha ortopédica. É por isso que você deve ser invocado com bota. Gosto é gosto. Fazer o quê, né?
– O problema é meu.
– É, realmente, e põe problema nisso! Problemão! Mental! Mentaaaaaaaal! Pelo menos você usa uma coisa útil. Olha o tamanho dessa fivela! Tudo isso é fome? Nunca vi neguim carregar prato de comida na cintura. Prato é apelido, isso é um caldeirão! Se o Luciano Huck te achar, cê tá feito, meu amigo! Feito bobo! Preocupa não, cê é cau-bôi, mas não tem culpa não. O importante é que amizade não tem preço, nem discriminação. Deixa eu cantar uma musiquinha pra você ficar calmo: “Ligues para mim um dia. Amigos para sempre é o que nós iremos ser, na primavera ou em qualquer das estações, nas horas tristes, nos momentos de prazer. Amigos para sempre! É o que nós iremos ser!!!”
Ouça nos fundos da sua casa: Amigos para sempre!
espirrado por Banditi - o cachorro às 03:16am
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sexta-feira, dezembro 23, 2005
Postado por Elisandro Borges
Tá acabando minha gente. Tá acabando o ano. Lá se vai o ano véi de novo! A poeira que ficou não vai ser mais a mesma, vamos espanar o que sobrou de velho por aqui. Considerações à parte, acho que também vou ter que dar uma espanada em mim mesmo. Que venham mais coisas boas, e ano novo geralmente é sempre um pretexto razoável pra renovar o otimismo por vezes sufocado na correria da rotina, seja de trabalho ou estudos, seja lá o que for.
O que importa é que os ponteiros continuam cumprindo o passo do tempo, o globo girando, as pessoas passando ou ficando em nossas vidas, e disso a gente deve tirar algum proveito, aprender ou desaprender, acertar nos hábitos. Pessoas... Elas fazem muita diferença sim. Por mais que o contato não seja tão freqüente, ninguém esquece um amigo de verdade. E amigos de verdade também somem por um tempo, mas sempre acabam aparecendo ao menos no final da novela. Aproveitando o post passado e o documentário assistido, como dizia Vinícius, “amigo a gente não faz, reconhece”.
E a vida é essa, uns casando, outros nascendo... não que casar seja sinônimo de morte, que isso! Casar deve ser bom, assim como ruim também, e a vantagem ou desvantagem é que a gente vai necessariamente ter aquela pessoa ali, ela é sua agora, pro que der, pro que não der ou vier, você guarda até o recibo, aliança brilhando no dedo e ainda ganha uma família novinha em folha de lambuja.
Espero boa sorte a todos, aos solteiros e casados, aos bebuns e aos santos (santo também precisa de muita sorte pra dar conta de tanta azucrinação do povo). Boa sorte a sorte, que ela tenha muita sorte pra deixar o nosso bolso sortudo, cheio e feliz... Bolso significa muita coisa também! Pode significar uma parte da roupa, de repente um porta-trocado, ou às vezes só um buraco pra esconder a mão na festa do amigo do primo do vizinho do conhecido da esquina ao lado, agrado típico de boa vizinhança.
No mais, o ano tá acabando, parabéns ano velho, você se foi, mas tirei umas fotinhas pra ficar na recordação. Os amigos continuam, e que fiquem por muito tempo, sem prazo de validade, e com aquele quinhão de tolerância pra garantir que tudo vai seguir em frente mesmo se houver um desentendimento ou outro. A satisfação é sempre nossa! Feliz natar, e aquele ano novo de novo! Só que melhor um pouquinho, né?
Ouça em alto e bom som: Manic Street Preachers - A Design For Life
espirrado por Banditi - o cachorro às 04:00pm
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sábado, dezembro 17, 2005
Postado por Elisandro Borges
“Quem pagará o enterro e as flores se eu morrer de amores?” O documentário sobre Vinícius de Moraes dirigido por Miguel Faria Jr. é simplesmente capaz de tocar até o mais bruto dos insensíveis e de fazer seu coração palpitar pela vida. Diplomata, boêmio, músico, poeta... tudo em uma só pessoa. Amou como nunca as nove mulheres que passaram por sua história e alimentaram a paixão que o movia, que o inspirava como nunca (Aff, chega de falar como nunca!). Vinícius sem paixão não era Vinícius. Poesia do início ao fim! Assistam o documentário, não importa o seu estilo musical. Imperdível!
Ouça em alto e bom som: Vinícius de Moraes - Dia da Criação
espirrado por Banditi - o cachorro às 02:45am
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