quinta-feira, abril 07, 2005

Baratinhas cupertinas

Postado por Elisandro Borges

... Baratinha quando nasce, esparrama a criação.

Baratas são um inferno! Baratinha quando nasce, esparrama a criação. Quem é que disse que a besta é um capetão? Mentira! A besta é a própria barata! Viu Carine! O mal do século não é o relacionamento! O mal do século são as baratas cupertinas! Elas quando chegam, infestam tudo quanto é canto da casa, principalmente onde existe pão! Meu prato mais nobre! Odio abrir o armário e ver as safadas correndo sem rumo tentando achar um buraco! Por que elas não se enfiam então no próprio cubículo? Eu já disse que não falo palavrão nesse blog e muito menos faço baixaria. Mas quero ver o pai-d'égua que vai me impedir de achar o ninho dessa PORRA! Nunca! Não, olha só, e quando elas atingem a meia-idade? Tem dó! Vira aquela festa de barata-velha-tarada voando pela casa, doida pra achar um baratão pra dar! Vai dar em outra ninhada, carái! Bucéfalas (ainda vou pagar royalty por usar essa palavra). Não quero nem saber! E eu que tinha dó de matar barata! Eu achava que era um ser vivo. Ser vivo o cacete! O meu ideal de vida agora é matar barata! Mata barata, mata rato, mata tuuuudo! Nuuussa! Não sei porquê, mas me deu uma vontade de comer pamonha! Olha a pamôôôôônha! Pamonha de sal, pamonha de doce, pamonha à moda, pamonha quatro-queijo, cinco-queijo, seis-queijo, quem dá mais? Quem dá mais? Olha a pamôôôôônha! Acho que esse negócio de barata tá me deixando doido! Áfe!

Ouça em alto e bom som: Papa Roach - Infest

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terça-feira, abril 05, 2005

Ironia jamais agressiva

Postado por Elisandro Borges

... Sua mente baseava-se na esperança da renovação, ainda que atingido por golpes de clava em fúria.

A casa era o mundo, por isso se sentia sempre em casa, onde o passado e o futuro estão mais em evidência que o próprio presente. Há uma sensibilidade, uma humanidade e a vontade vagamente citada na ironia jamais agressiva de suas palavras. Palavras estas, derivadas de Calvino e intrusamente redirecionadas por aqui. Sua mente baseava-se na esperança da renovação, ainda que atingido por golpes de clava em fúria. Há momentos na história que precisa-se unir a um lado ou outro da vida. E o diário que se escreve jamais será publicado, quando seu olhar já difere do que antes pensara dos comunas italianos esquisofrênicos e dissociados. Ele lembra quando se sentiu desajustado, estranho e hostil. Há zonas de existência que não podem se expor ao sol, pois elas também se perdem. Os lugares se perdem. No entanto, as plantas eram nomeadas com etiquetas em latim. Talvez ele tenha se tornado dono daquele lugar, mas se afastou, e os lugares se perderam de suas "posses" nunca antes adquiridas. Os cenários de sua infância davam formas ao seu contemporâneo. E dizia que Paris era a voz de uma enciclopédia e que os queijos com seus particulares conceitos, pareciam oferecer-se aos pratos curiosos e salivantes. E os homens que esperavam alguma coisa um do outro, já não sabiam mais o que esperar. São as cidades invisíveis. Todas com suas realidades e ficções, em caracteres maísculos e minúsculos, que separados por pontos e virgulas, ganhavam vida em sua escrita suave, e novamente, na ironia jamais agressiva de suas palavras.

Ouça em alto e bom som: The Mars Volta - Widow

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sábado, abril 02, 2005

ZERO

Postado por Elisandro Borges

... Quando chego à única e última bagaça aberta da redondeza, tenho que aceitar a escassez da cura vital pra minha ânsia voraz e eminente.

Olá, Elisandro! "Você tem 0 mensagens". Quem é que não entra em estado de gozo profundo ao abrir a caixa de e-mail e se deparar com esse recado gentil e aniquilador? Que satisfação escandalosa! Do e-mail, vou parar no blog quase que tropeçando e lá encontro nos "Bajulações, cretinices e afins", a seguinte delicadeza: (0). Isso mesmo, essa é a somatória! (0), lê-se ZERO - o número que me afaga o ego em noites de insônia. Resta então uma útlima esperança: Orkut! Chego lá e é a mesma história, isso porque eu já sabia, pois quando a gente recebe uma mensagem no orkut, sempre chega uma notificação no e-mail, mas como a esperança é a última que desmaia, talvez, nesse meio tempo relâmpago, um filho de Deus possa ter escrito um "E aí!". Que bobagem transcendental! O cara aqui virou mucamo da net, meeeesmo! MUCAAAAAAAMO! Seu escravo!!! Então, resolvo ligar para alguém, mas como o telefone aqui é daqueles planos que ao atingir tantos minutos, a ligação discada é bloqueada automaticamente e não sou capaz de fazer um só contato - o que me faz mais uma vez, o prisioneiro consciente das minhas próprias armadilhas econômicas. Beleza! Tô bonito na foto mesmo sem perfume. Solução: comprar um cartão telefônico e enfiar o cabeção no orelhão, pois todo cabeção é digno de um orelhão! Quando chego à única e última bagaça aberta da redondeza, tenho que aceitar a escassez da cura vital pra minha ânsia voraz e eminente. Não há cartão de espécie alguma! É... Tem dias que o negócio é comer um pão com nescau, ir pra cama, e dormir na esperança de encontrar uma alma viva no dia seguinte pra te dizer aquelas duas palavrinhas: "E aí!"

Ouça em alto e bom som: Collective Soul - Forgiveness

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terça-feira, março 29, 2005

Se-vilização

Postado por Elisandro Borges

... A linha divisória das duas espécies que compartilham uma parede, não é tênue, mas sim, praticamente imperceptível.

Vamos mandar benzer a vizinhança! Se vizinhos fossem cães selvagens, acabariam rasgando um ao outro no dente. Claro, abriremos quantas exceções forem necessárias, mas o problema surge quando a civilização bate à porta do esperado cidadão, e a mesma, volta angustiada sem resposta alguma. A linha divisória das duas espécies que compartilham uma parede, não é tênue, mas sim, praticamente imperceptível. Testemunhas não me deixarão falando ao esmo e desacompanhado, muitos sabem do que falo. Sons das mais diversas e inimagináveis origens, brotam da parede ao lado. Providências foram tomadas. Antigamente tínhamos que presenciar as intimidades que vazavam aos nossos ouvidos em alto e bom som, como que ironicamente querendo parafrasear o "ouça em alto e bom som" deste blog. Graças ao bom senso, o mundo está voltando aos dias para os quais nasci. E assim vou acreditando em tentativas...

Ouça em alto e bom som: Placebo - Pure Morning

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sábado, março 26, 2005

Tá chovendo agora

Postado por Elisandro Borges

... Ouvindo o chiado flutuar ao redor.

Tá chovendo agora. Já olhei lá pra fora e deu a maior preguiça de sair. É bom ficar em casa ouvindo o chiado flutuar ao redor. Assistir filme no escuro, e vou te dizer, mesmo sozinho também é bom. Vou dizer também que, quando a chuva passar, vou olhar pra fora e sentir o cheiro que ela deixa em tudo. A gente é feliz e não sabia, ouvindo o chiado flutuar ao redor.

Ouça em alto e bom som: Lighthouse Family - Loving Every Minute

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quarta-feira, março 23, 2005

Com ou sem alguém

Postado por Elisandro Borges

Gostar é ser feliz. Paixão é prender-se a alguém. É se perder em alguém. É perder de si mesmo. E se o amor for esse sentimento derivado da paixão, é amor acompanhado de sofrimento. Agora, amar de forma desprendida da paixão é provavelmente a melhor forma de amar alguém. E esse é o amor de quem ama a família, os amigos e de todos os que nos fazem bem! Não sei se deveríamos amar quem nos "mata", talvez entender em vez de amar, porque amar é um sentimento espontâneo, logo não gostamos de quem nos faz mal. Portanto sou feliz. Quero chegar até o fim da minha vida assim... Feliz. Vai, esquece o vazio. Acho que ele só aparece quando falta o amor próprio. Não tenho religião, mas acreditar em Deus é mais um motivo de estar feliz também. Tem gente que se sente bem sendo ateu. Que fique bem assim, então. Acho também que a gente não depende de um casamento pra ser feliz. Nem de um namoro. Pode ser que você seja feliz casado(a) ou namorando, mas isso não é nenhuma regra. Também não é regra tudo o que falei, muito embora sejam constantes os exemplos. Então, vai ser feliz com ou sem alguém. Pra mim isso é o que importa.

Ouça em alto e bom som: Audioslave - What You Are

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terça-feira, março 22, 2005

Sutileza

Postado por Elisandro Borges


Não consegui evitar a pérola do aviso que vocês podem ver ao lado. Ali temos alguns ovos de páscoa. Reparem bem na foto e leiam com seus próprios olhos! "Se você quebrar, vai pagar..." PUTZ! CARACA! Isso é lindo! E olha que não é nenhuma montagem. Surtei ao ver! Tive que voltar lá pra tirar essa foto. Nussa! Tenho que fazer um curso de marketing com esse doido! Hilário! Uh huuuuuu!

Ouça em alto e bom som: Tonic - Casual Affair

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segunda-feira, março 21, 2005

O ensaio de uma identidade

Postado por Elisandro Borges

"Eu sou o que eu amo, não o que me ama"

Eu poderia parar esse exato minuto pra organizar as minhas coisas. Já parei pra pensar em tantas, enquanto esqueci tantas outras. Está tudo jogado por todas as partes e pareço não ter o controle, nem indício por onde começar. A inconstância tem me tirado o foco de qualquer parâmetro. E onde estão esses? Às vezes começo a ler um livro, pelo qual minha curiosidade faminta deveria devorá-lo sem pré-degustações, na fome de quem mata a espera longa. Mas páro, e começo a ler outro. Tenho me questionado o tempo inteiro por essas confusões e mais do que nunca, recomeçado, na intenção de encontrar um sentido. Tenho também a impressão de que minha vida é basicamente como esses livros que não sei definir o final e que perco a atenção, e logo em seguida me dá vontade de ler outro. Horas em que não sei se esperar é a solução, me sinto enganando o tempo com os cuidados de quem não quer ser percebido. Ainda assim, quero fazer acontecer, quero mover essa inércia. Vou depender de pessoas também, por isso tolero a espera. Não quero mais esperar. Vou ter que fazer a escolha sempre e assim sempre foi e assim vai sendo. Quando a cabeça está quente, ninguém vê o que está do lado, na frente ou onde quer que esteja a noção de espaço. Tempo e espaço. Essa seria a noção. São os investimentos de hoje. E quais seriam? "Eu sou o que eu amo e não o que me ama". Gostei dessa frase. Mas antes de ser, preciso sustentar minhas necessidades mais básicas. As contas não esperam. Quero brincar com a arte, saber entender uma música e sentir o gosto da comida, não quero ter pressa ao comer. Só quero namorar o que sou e imaginar o que ainda posso ser. Não há inclinação pra vida social agora em mim, sem antes o ensaio de uma identidade. Preciso definir quem eu sou ou o que sou e pra onde quero ir. Quantas vezes vou ter que nascer de novo?

Ouça em alto e bom som: Tom Waits - Dead Man Walking

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sábado, março 19, 2005

Deixa ser

Postado por Elisandro Borges

Nada de errado. Certo? Por que você me faz essa pergunta? Por quê? Eu sei o porquê. E qual é? Você se subestimou. Quando? Quando disse que foi só mais um. Ser mais um não é problema nenhum e eu nunca soube rimar. E o que foi isso, então: ser mais um, não é problema nenhum? Essa foi sem querer. Então quer dizer que você foi mais um sem querer, correto? Talvez. Sabe, eu não sei ser mais um e depois não tenho lá muita intimidade com travessões, tampouco com pontos e víruglas. E daí? Pára com isso, não é pra pensar assim. Você teve o seu tempo e ainda vai ter muito pela frente. Mas me conta o que vem pela frente. Não, isso eu não sei, não vou saber até que você me conte quando o dia chegar. Que dia? Pára de dar uma de Joãozinho sem braço! Tô falando sério, que dia? O dia em que você parar de pensar no que vai acontecer, deixa ser assim, no compasso. Descompasso, talvez. Então deixa ser.


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sexta-feira, março 18, 2005

Velho Tarado

Postado por Elisandro Borges

Até que ponto vai a libido, hein? Estava eu andando pelas ruas do centro da cidade, quando vejo um senhor em torno de seus 90 anos, quase tendo uma torção no pescoço pra olhar a bunda de uma mocinha que passava por ele. Que eu a metade da força desse velho tarado quando eu chegar à essa idade. Mas que eu seja ao menos um pouco mais discreto...

Ouça em alto e bom som: Papa Roach - Not Listening

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quarta-feira, março 16, 2005

Transferimento¿¿¿

Postado por Elisandro Borges


Não basta ser brasileiro, ler bons livros, cultuar célebres e costumazes colunistas de jornais de ponta ou ainda alimentar uma singela curiosidade pelo português bem utilizado, que atos falhos um dia irão sabotar em gafes e deslizes o mais profundo pedante que vos enrola em ligeiras aliterações. Tive a capacidade de perguntar à uma atendente de um banco, se eu deveria digitar a mesma senha que eu costumava usar para "transferimento". Cataclismos! Vejam bem, TRANSFERIMENTO!!! Tamanho disparate não poderia ter sido vomitado por minhas dissonantes cordas vocais. Que vergonha! Tentei jogar uma "transferência" logo em seguida, mas o estrago já estava feito. Acho que houve só uma testemunha, a própria atendente, espero. Aliás, agora fudeu. Já é manchete!!!

Ouça em alto e bom som: Zeu Britto - Soraia Queimada

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terça-feira, março 15, 2005

Pra dentro de mim

Postado por Elisandro Borges


Eu nunca quis te machucar e um dia a gente acaba falando ou fazendo isso. Um dia... É estranho acordar sem te ver aqui do meu lado, te confesso. Confesso tudo o que você quiser, mas acho que já disse tanto, que muitas vezes prefiro me calar. Ainda estou muito longe de aprender a me relacionar com alguém e o meu egoísmo continua assim, gritante, insuportável até. Muitos não querem ficar sós, mas no meu caso, a história tem se repetido ao longo desses anos. Acho que me acostumei a essa insuficiência. Insuficiência de ser ao menos o mínimo para o outro - o que seria talvez quase nada, mas não é. Cruel dizer isso, pior pra quem sente na pele. E não é de propósito. Faz falta ouvir sua voz e sua presença pela casa ninguém substitui. Sei que machuca, mas não consigo evitar. Não consigo evitar de ficar só. Não consigo evitar. Falo por hoje, não garanto o que vem depois. O que vem depois é sempre incerto. Ora ou outra, você me pergunta se tenho medo. Digo que não. No fundo quando penso, percebo que o maior medo sempre foi de mim mesmo, e assim você absorve, passa também a ser seu o medo. Não quero isso. Deixe essa sensação só pra mim. Uma hora me curo. Fica bem. Não vou a lugar nenhum, a não ser pra dentro de mim.

Ouça em alto e bom som: Massive Attack - Inertia Creeps

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sexta-feira, março 11, 2005

Mudanças no brogue

Postado por Elisandro Borges


Pronto, resolvi mudar esquisito! Os comentários, gritos, quaisquer que sejam as bajulações, sermões ou apenas "ois", terão um espaço único e indiscriminado ali ao lado direito. Não posso negar que fico muito feliz quando vejo alguém deixando um sinal de vida.

Há braços e reverências!

Ouça em alto e bom som: Faith No More - Ashes to Ashes

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terça-feira, março 08, 2005

Estranho aos nossos modos

Postado por Elisandro Borges


Aquele homem caminha ao final de todas as noites, logo enquanto todos sonham. Caminha pra respirar o ar solitário das manhãs que ainda não despertaram. O café amargo lhe desfaz o sono inerte e toca suas vontades mais subversivas. Ninguém o vê sair, com exceção daquela senhora do sétimo andar que nunca apaga a luz para dormir, se é que dorme sequer, e do louco que os conta meias verdades. Sob os olhos da mulher vivida, ele finge não notar que está sendo observado do alto. E parece ser do alto a origem de todas as suas ânsias, lugar extremo onde mantém sua incansável mania de dar bom dia ao sol.

Quando todos acordam, ele some. Não existe mais o personagem de imaginações ingênuas durante os gritos da cidade inquieta. Sua paciência seria notável se pudéssemos vê-lo nos dias banais de quem paga suas contas. O engraçado é que aquele homem nunca se deixou morrer. Estava ficando velho, no entanto possuia a memória suficiente o bastante para espanar as poeiras de sua mente. Não sei se alguém o conhece, é estranho aos nosso modos. A senhora do sétimo andar um dia conseguiu cruzar o seu caminho, só que esmoreceu ao tentar qualquer sorte de contato. E ele passou. Passou pela primeira, e talvez última vez.

Ouça em alto e bom som: Los Hermanos - Cara Estranho

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domingo, março 06, 2005

Descontrole

Postado por Elisandro Borges


Ela entende sua língua. Não o questiona por nada e tampouco demonstra a menor curiosidade por suas fraquezas. Não é preciso ser curiosa quando se sabe. Comunicação verbal seria redundância pra quem basta o jeito de olhar. Ela te acerta assim, sem fala ou esforço algum. Não dá pra fingir o descontrole. Voluntariamente preso à ela, você tem a liberdade mais generosa que te poderia acontecer.

Ouça em alto e bom som: Cake - Short Skirt, Long Jacket

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terça-feira, março 01, 2005

Dormente

Postado por Elisandro Borges


Minhas vontades egoístas só te alimentam o tédio. Fico pensando que talvez não devo administrar bem o tempo, dois nunca são um e nunca serão. Eu não sou capaz de ser completamente eu quando penso em você. Alguma parte vai ter que ficar sufocada e dizemos então que abrimos mão disso ou daquilo. Sufocar as vontades antigas e adquirir hábitos novos, porque é preciso satisfazer o outro. Mesmo que isso signifique esquecer os próprios caprichos. Pode ser. Aquele que esquece a si mesmo deve ser a melhor companhia, pois vai estar sempre a postos do outro. Eu sei que exagero em quase tudo, mas ouvi você falar em solidão acompanhada.

Foi um choro, é verdade, você chora, sente saudades... Saudades. Saudade não se conta nos dedos, não sei então por que vai para o plural. Escuto o seu nariz escorrendo aqui bem perto de mim, é você chorando baixinho no escuro. Não consigo mais chorar por nada. Acho que nada me comove. Acho que não consigo sentir mais pena de ninguém. Não sei qual é a dor do outro, mal sinto a minha. É estranho estar dormente por esses cantos. Me sinto nulo nesse minuto. Não existe expressão alguma no rosto, meu rosto, é claro. Agora desligo a música que me alegrava pra te dar sossego e porque você assim pediu. Amar. Amar é também se acostumar. Amar é ter muita paciência. Amar é muito mais do que penso, é talvez muito mais do que sei oferecer.

Ouça em alto e bom som: Los Hermanos - Sentimental

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sexta-feira, fevereiro 25, 2005

Senhas

Postado por Elisandro Borges


Ouvi dizer que ela não gosta do bom gosto, nem do bom senso. Não mencione os bons modos, porque ela não gosta. Agüenta até rigores e não tem pena dos traídos, enquanto hospeda infratores e banidos. Respeita conveniências, não liga pra conchavos, suporta aparências e não gosta de maus tratos. Agüenta até os modernos e seus segundos cadernos, os caretas e suas verdades perfeitas. Agüenta os estetas, não julga competência e não liga pra etiqueta. Aplaude rebeldias, respeita tiranias e compreende piedades. Não condena mentiras nem vaidades. De tudo ela gosta um pouco. Gosta mesmo é dos que têm fome, dos que morrem de vontade, dos que secam de desejo e dos que ardem.

Ouça em alto e bom som: Adriana Calcanhoto - Senhas

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domingo, fevereiro 13, 2005

Câmara de tortura itinerante

Postado por Elisandro Borges


Ônibus de viagem lotado e as duas únicas poltronas disponíveis eram de frente à porta do banheiro. Não sabíamos que estávamos prestes a passar por um dos mais rigorosos testes de resistência humana que alguém poderia sequer ter sido submetido. Passados alguns minutos, um senhor futum decide pairar em férias sobre a atmosfera interior daquele caixote que nos envolvia em uma sórdida e sufocante experiência.

Se pegássemos no sono, era pesadelo atrás de pesadelo, como que numa angustiante tentativa do cérebro em nos acordar para uma vida melhor. Era em vão o eforço. Acordar não seria uma das mais acertadas opções, pois a realidade do ambiente solapava o único quinhão de oufato que ainda restara de nossos sentidos. Comecei a pensar em Deus nesse momento tortuoso. Comecei a acreditar que tudo era possível e lembrei que cada minuto representava uma oportunidade de mudanças. Contei... Contei... Contei cada minuto e me perdi em meio a tantas horas.

Para a salvação da lavoura, o ônibus pára em uma das estações e algo acontece. Àquela altura, nós estávamos semi-desmaiados e não foi possível destrinchar os detalhes do meio termo que nos devolveu a vida em requintes de ares novos. Passado o sufoco de 20 horas, estávamos livres daquela câmara de tortura itinerante. Pronto. Foi isso. Chega.

Ouça em alto e bom som: Qualquer barulho louco de Stomp!

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quinta-feira, fevereiro 03, 2005

Vintages

Postado por Elisandro Borges


Vamos ganhar língua solta dessa vez. Não exija sentido na estranheza desses traços, pois há de convir que às vezes são tortos e não dizem lá tantas coisas. Já pediram pra escrever sobre amizade por aí, mas vem cá, esse pedido descansa há décadas em arquivos esquecidos. E olha só a barba por fazer, ela esfrega o tempo em nossas caras fatigadas, na vontade muda de nos dizer que já não somos mais crianças. E os amigos? Eles estão em seus cantos, moram aqui dentro também. Uns passam, outros ficam... Quanto tempo faz que não nos econtramos, hein?

É assim mesmo. Correria, responsabilidade por todos os poros. Planos certeiros, desencontros. Sorte à vista. Lançaram os nossos amigos janela afora nesse mundo incerto. São tantas janelas, passagens em metáforas que mal pescamos - e um vacilo pode sublimar tudo em um segundo. Errar, correr, falar de boca cheia... Ser feliz por pouca coisa. E olha que não recuso copo de requeijão, eles me lembram bons tempos lá em casa. Quero brindar em copo de requeijão quando eu assim chegar. Copos com rótulos baratos também servem vintages de Dom Perignon. Quero um brinde aos nossos dias. Um brinde às seletas safras de bons amigos que não se separam. Tim-tim.

Ouça em alto e bom som: Portishead - Roads

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quarta-feira, fevereiro 02, 2005

A propósito, o propósito

Postado por Elisandro Borges


Ela se agarra como louca no começo, mas dez minutos é a tolerância máxima. E então, os dois querendo dormir, viram-se de costas um para o outro no ato individual de cair no sono. Quando acorda, o beijo selado e discreto evita de engolir a seco o gosto amanhecido. Tem coisas que nem a cumplicidade de velhos amores é capaz de suportar. O bafo matutino é teleguiado, impiedoso e surpreende inexplicavelmente até mesmo as mais congestionadas narinas. Não há ataque de rinite que impeça tamanho estrago.

Talvez ainda não tenhamos aprendido a amar com o nariz em horas desfavoráveis. Odores, cheiros... Gostos também entram em questão. Não sei se isso seria mais agravante que um sonoro ronco ao pé do ouvido. Descobri por ela que ronco, e não há mais pra onde correr. Agora ela sabe. Decerto escondia de mim, ou ao menos tentava amenizar a brutal verdade. E o que importa? A propósito, o melhor de tudo ainda está aqui: o propósito - amor - tão fundamental quanto sexo.

Ouça em alto e bom som: O Rappa - Linha Vermelha

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