Quarta-feira, Junho 15, 2011
Carta para Cleres Fernandes Borges
Não sabia que o dia dos namorados levaria um pedaço tão grande do meu coração: Cleres Fernandes Borges, minha mãe. Perdemos nossa mãe na data em que se comemora o amor, ou pelo menos uma das formas de se amar alguém. Agora, o coração ficou do tamanho de uma ervilha, ficou apertado, muito apertado. Ela não está mais no quarto, nem na poltrona. Lutou até o fim, até o último suspiro de domingo, às 17:05 de 12 de junho de 2011, nos braços da família. É difícil ver sua mãe, tão amada, ir embora desse jeito: câncer. Não sei o que dizer nessa hora. A vida inteira fugi da aflição de imaginar o dia em que ela passasse para o outro plano. Sei que apego não é bom, uma hora me liberto. Todos falam que a vida continua. Sim, a vida continua pra quem fica e de uma outra forma pra quem vai, mas não deveria separar as pessoas que se amam. As pessoas que se amam deveriam existir pra sempre, inseparáveis, imunes a qualquer doença ou mudança de percurso.
Falam também que devemos ser fortes, encarar a realidade e acordar. Não é fácil. E as lembranças voltam. Vão e voltam como promessa cumprida. Só que o nosso amor não descansa, porque não se cansa, mãe. É contínuo, permanente, forte e verdadeiro... assim como a saudade que mora aqui, na nossa existência, na memória que guardamos dos seus melhores dias e humores, das suas músicas, da sua alegria, do seu jeito duro pra disfarçar o lado frágil. Sua voz ainda fala. Cada lágrima que vem do peito é pra aliviar sua falta. Desculpe a dor que provavelmente a gente possa estar causando a você também. Cada dor que você sentiu, foi sentida por nós. A dor da carne passou e você partiu.
Talvez a gente consiga ter a sorte se comunicar em sonho e receber sua visita maravilhosa. Quero muito que você veja essa carta ou sinta a mensagem de onde estiver. Lembra quando você se esforçou para aprender a usar o e-mail, só pra diminuir a distância que estávamos um do outro, eu em San Francisco e você em Goiânia? Tenho aquele e-mail que você escreveu 7 anos atrás. Tenho até hoje, intocável, do jeito que você fez, sem tantos pontos ou edições; só sentimentos, naquela tarde de quarta-feira, no dia 18 de agosto de 2004, às 13:16, olha só:
De: Cleres Borges
Para: elisandroborges@yahoo.com.br
Enviadas: Quarta-feira, 18 de Agosto de 2004 13:16
Assunto: INDIFERENCA
OI, Eli,tudo bem? - Disparei a escrever leia em seguida um dos meus trechos
INDIFERENCA
Sentimento abstrato, sinestesia do querer distante. Prazer ficticio, desejo que se concretiza longe de mim, que some ao estar perto e somado a distancia de ter, nao me faz ser ao perto de estar.
Alma, querer perto de te estar. Vida, sentir distante de te ficar. Quando vida sem te nao ter , ser quando distante de te viver
CLERES , Tchau,tchau.
Um abraco.
Mãe, esse foi o seu penúltimo e-mail que havia escrito. O último foi uma piada cuti-cuti que você me mandou pra aliviar a angústia da distância. Depois, voltamos a morar juntos e o e-mail ficou de lado.
A Kênia e a Rosi foram duas gigantes durante os momentos em que você precisou de tratamentos. A Emília um anjo. Elas te trataram da mesma forma que um bebê deve ser tratado, com muito carinho e cuidado. Tentamos preservar a Giu e a Gio ao máximo. A tia Clélia e a tia Regina estiveram ali o tempo inteiro. A Mari, a dona Angela... eu fico até com receio de mencionar nomes e não falar de pessoas extremamente importantes, muita gente mesmo, muita, muita, muita... peço perdão aos nomes que não coloquei aqui, pois cada um foi crucial. O sr. Emílio, nossa, não consigo colocar todos aqui, difícil, perdão por isso. Foram vários familiares e amigos que nos trouxeram muito conforto e apoio. Também quero dizer a todos que o nosso pai, Edson Borges da Silveira, sempre foi um herói e entendemos cada situação que possa ter acontecido ou ficado em aberto. Cada um tem a sua forma de amar e demonstrar apreço. Algumas pessoas podem não entender, ainda assim, temos que esquecer qualquer desavença, porque família é um elo que não se deve quebrar. Desculpe a exposição de tudo que estava engasgado aqui comigo, não pude evitar. Obrigado por ter cuidado tão bem de mim, das minhas irmãs, das suas netas, do seu amor...
Sei que essa carta pode parecer um pouco egocêntrica, mas saiba que o meu sentimento se estende a muitos.
Vamos continuar te amando muito, minha linda. E sabemos que você também continuará nos amando muito. Que você descanse em paz ao lado de Deus, sem dores, só com amor, muito amor e paz.
Um beijo enorme e eterno,
De seus filhos Elisandro, Kênia e Rosi; de seu marido Edson; e de toda sua família e amigos.


Que foto linda, amor! Nunca a tinha visto.
Força! Estou do seu lado de apoiando nesse momento difícil.
Te amo.
Meus sentimentos irmão. Passei por isso há 02 anos e não há dor comparável, mas também não há lembranças mais deliciosas que as da mamãe. Segura a onde parceiro, tu passa!!